quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

As primeiras propostas

Proposta de Encenação

A imagem, nos espetáculos do grupo é um dos elementos em comum que identificam uma estática no repertório do Bagaceira. Essa "estética", ainda em processo de entendimento, para mim enquanto encenador, ainda é o ponto de partida para vislumbrar uma montagem. Tenho que ter uma imagem inicial para que se desenrole um processo (pelo menos em minha cabeça), na qual possa lançar a idéia para o grupo, colocando-a em discussão. Sempre funcionou assim.
Passados quase dez anos, essa forma de trabalho ainda é recorrente. Não consegui desvencilhar-me das tais imagens. De todos os processos ao longo desse tempo, o projeto InCerto, talvez seja para mim o mais incerto. Não tinha a mínima idéia do que poderia vir a ser, enquanto cena, o espetáculo.
A partir dos experimentos propostos na sala por cada ator e atriz, tive pelo menos uma certeza: de que o espaço não seria mais o palco e que os equipamentos de luz e som seriam, também, objetos de cena (de aquisição do próprio grupo).
Busquei então me deter ao título INCERTO inicial, quando o de cena, de criar uma dinâmica e uma plástica as cenas e ao , na busca de um conceito que facilitasse a criação de cenário e figurinos. De início, tentei abrir mão de cenário, mas percebi que ainda tenho necessidade da cena dialogar com elementos. Teria que ser algo móvel, que permitisse alterações no jogo dos atores e dialogasse visualmente com a dramaturgia. Reportei-me então a uma idéiaprojeto ainda se intitulava Ausência, no qual o cenário era composto por bancos compridos de metalon com chapa de aço. Fiz então uma maquete desses bancos e percebi que seria possível a utilização desses elementos nas cenas, já que se trata de objetos móveis e que, dependendo da disposição, criam-se espaços e estruturas. A idéia do banco por si me remeteu a lugar de espera, de passagem, de tempo, de incertezas. Sentar e esperar: por quem? Por quê? Pelo quê? Os bancos também podem ser utilizados como camas, enfileirados formando passarela, labirintos, limitar um espaço fechado, etc. A proposta é buscar possibilidades com esses objetosespetáculo num todo. O mesmo ocorre com a luz, onde a cada cena os refletores serão dispostos a serviço das mesmas. Uma caixa amplificadora, no modelo daquelas de banda de garagem (retrô) fará parte dessa composição cênica, ficando no centro da parede que servirá de fundo ou em um outro espaço ( adaptando a diferentes locais). Uma das propostas é que o elenco esteja o tempo todo em cena, dialogando com o todo.
Acho que não seria interessante um espetáculo formado por dez monólogos. Pode até acontecer de haver um ou dois no máximo, mais tudo isso é especulação, não é idéia fechada. Uma outra idéia seria a de confeccionar bonecos em tamanho natural e em preto e branco de cada ator e atriz, uma espécie de duplo (essa idéia ainda não está clara pra mim) mas já imagino uma cena inicial e que ainda é muito prematuro pensar nisso.
Mas como já disse: são apenas propostas, nada mais.


Yuri Yamamoto. 10/12/09

Experimentando a Cena

Setembro de 2009

Foi proposta uma troca de presentes no formato de amigo secreto. Os presentes consistiam em materiais absolutamente livres, que revelassem o momento atual e a intimidade da pessoa que presenteou. Cabia ao presenteado montar um experimento cênico tendo esse material como inspiração. Resultou, então, em 10 experimentos que foram apresentados na sala de ensaios da sede do grupo no mês de setembro de 2009.

PAULA

- Folhas secas no chão.

- Briga.

- Iluminação com luz de vela, espelho e luminária.

- Luz vindo de baixo.

- Sonoplastia.

- Assumindo a si mesma, lendo poemas e depois falando de si.

- À flor da pele.

- Violência, afronta.

- Cheiro das folhas: sensorial.

- Sombra na parede.

TATIANA

- Giz no chão.

- Linha do Tempo.

- Frases na parede.

- Iluminação ambiente.

- Falou da própria vida. Do que fez e do que não fez. Anos pontuais.

- Escreveu uma interrogação no próprio vestido.

- Sonoplastia.

- Não ensaiou.

- Usou frases do material dado a ela por Rafael.

- Foi ela mesma, só que falando em 3ª pessoa.

- Pareceu cabala, sem querer.

- Frases utilizadas:

“você aí do outro lado do tempo”

“espero que... espero que... aliás, não espero nada”

“correr contra o tempo, contra o que não fiz, e ao encontro do que ainda posso fazer”

“sentimento de atraso”

“Eu vou sair comigo mesmo e ninguém mais”

“Menino, arrasei, estou conversando com o futuro”

“intimidades nossas”

“não vou te influenciar, futuro, viu, não vou mais não”

EDIVALDO

- Sapatos amarelos.

- Vídeo.

- Vários pares de sapatos no chão simulando caminhos

- Luz: luminária manipulada – recortando só nos sapatos.

- Vídeo.

- Imagens urbanas, caos, correria.

- Arte, música, dinheiro, sustento, ruas, calçadas, sons.

- Uso da fisicalidade. Foco nos pés e pernas.

- Cotidiano.

- Vídeo + cena.

RAFAEL

- Rapaz conversando com alguém, mas falando sozinho.

- O outro foi simbolizado por um ventilador ligado.

- Meia luz ambiente.

- Separação, ciúme, superação, tempo.

- Vento como simbologia.

- Tudo o que ele faz ou entrega, volta pra ele.

- Incompreensão.

- Desmoronamento.

- Transição de emoções.

- Tocou mais do meio pro fim.

- Sonoplastia.

- Ajuda da Tatiana.

YURI

- Texto no som lido por ele.

- Óculos escuro, TV, ventilador, pó voando.

- Luz da TV.

- Vento simbolizando o tempo.

- A ação do tempo.

- Girando lentamente.

- Texto: certidão de nascimento.

SAMYA

- Mulher que arranja um homem, senta-o e tira da bolsa uma corda, amarra no dedo dele como aliança, tira da bolsa outra corda e entrega a ele. Ela vai puxando a corda da mão dele e vêm penduradas algumas figuras: carro, crianças, casa, etc.

- Luz vinda do chão.

- Falar da pessoa que se entrega por não ser completa.

- Démick foi escada de cena.

- Músicas de Maria Bethânia.

- Cíclico, história sem fim: pula de um homem para outro e tudo se reinicia.

DÉMICK

- Nome: Cena aberta.

- Revisão do seu fazer teatral.

- Falou de si mesmo e de sua lida com o teatro.

- Um ator (que parecia ser ele mesmo), no camarim antes de começar a peça.

- Auto-reflexivo, depoimento.

- Duas araras com figurinos demarcavam espaço.

- Iluminação de luminária no teto.

RICARDO

- Clown

- Música de Christina Aguilera.

- Dilema entre o trabalho de expediente e o trabalho artístico.

- Carteira assinada x Peruca de palhaço.

- Momentos engraçados, uso de cores.

- Mostrou o ócio do dia-a-dia.

- Luz de luminária no chão.

CHRISTIANE

- Mulher sentada à mesa lendo

- Leu textos, poesias.

- Havia papeis em cima da mesa.

- Escuro. Iluminada por um lampião elétrico.

- Mulher parecia esperar. Vez por outra vinha à janela ver se alguém estava chegando.

- Leu textos escritos por todas as pessoas do grupo, de um exercício cênico anterior.

- Bebia água.

- No som tocava repetidamente uma música do The Beatles.

ROGÉRIO

- Sentado com fone de ouvido.

- Leu um conto de um livro.

- Usou vídeo na TV.

- Imagens em vídeo dele circulando nas praias de Salvador e Rio de Janeiro.

- Luz de luminária.

InCerto

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O primeiro passo

Durante alguns dias foram realizadas entrevistas individuais com cada membro do grupo em relação a vida, espectativas, trabalho, etc. Ficou a cargo do Rafael que assinará a dramaturgia do espetáculo fazer um "diagnóstico" geral do material colhido das entrevistas.

RESULTADO ENTREVISTAS - BAGACEIRA

Revendo todo o material das entrevistas, vou a alguns pontos que se tornaram muito comuns:


POSIÇÃO DIANTE DO GRUPO

- Cansaço: A enorme maioria parece estar cansada, entediada. Com o grupo e com a própria vida. A espera de novidades, de projetos que caminhem de verdade e de alguma peça que retome a ousadia e o impacto que ficou menor nas montagens dos últimos anos. Querem novidade, algo que não tenha sido feito no grupo.

- Impaciência / pressa: Devido ao cansaço, todos querem agilizar a montagem sem passar pelos erros do passado, mas com certa urgência. Parecem querer “fazer”. Estão cansados de discussões.

- Falta de dinheiro: Muitos (talvez todos) demonstraram frustração em aspectos financeiros, e no crescimento do grupo como empresa. Talvez seja importante pensarmos, então, nas possibilidades de lucratividade do novo espetáculo, até porque nele estarão dez atores.

- Convivência: Bastante citada também, foi a falta de prazer na convivência, que veio aumentando. Precisamos ficar atentos, dessa vez, para termos um processo mais leve, mesmo com as diferenças de personalidade. O processo deverá reabilitar a convivência entre todos.

- Enjôo de Teatro: Alguns citaram estar enjoados de teatro. Outros demonstraram não ter sido tocados por praticamente peça nenhuma nos últimos anos. Quando citamos a produção teatral local, muitas vezes pareceu haver sentimentos como desprezo e aversão. Poucos citaram peças locais dentre as boas peças que assistiram. E quando citaram, falaram de peças antigas.

PRÓXIMA MONTAGEM

Eis aqui, algumas das expectativas mais recorrentes para a próxima montagem:

- Todos em cena: Todos demonstraram vontade de participar atuando. E muitos citaram a importância de, nesta montagem, estarem os dez em cena.

- Naturalismo na interpretação: Surpreendentemente, quase todos colocaram a vontade de fazer algo próximo ao natural. Citaram palavras como realismo, naturalismo e minimalismo. Muitas vezes esclareceram dizendo que não precisa ser uma peça “puramente” naturalista, mas com interpretações mais naturais, espontâneas, íntimas.

- Foco no ator: Também com grande maioria, a idéia de peça que valorize o ator acima de qualquer aparato cênico. Muitos sentem a precisão de trabalhar melhor a palavra, subtextos, fazer intenso trabalho de mesa, experimentar a verborragia.

- Olho no olho: Esse foi um termo muito usado. Os atores têm sentido necessidade de trocar olhares, de proximidade, de diálogo, de cumplicidade em cena. “Olho no olho” e “contracenar” foram expressões comuns ao discurso da maioria.

- Várias leituras: Alguns falaram em “obra aberta” ou “abrir para várias leituras”.

- Comoção: Falaram muito em comoção, em deixar o espectador à flor da pele. Citaram muitas obras de cunho delicado e comovente.

- Cara limpa: Comentaram a necessidade de fazer uma peça com caracterização menos pesada.


TEMAS MAIS RECORRENTES

- Solidão

- Escolhas

- Liberdade / aprisionamento

- Tempo / Efêmero

- Patologias psicológicas /obsessões

- Maldade/crueldade

- O ser humano

LOCAL DE APRESENTAÇÃO

Esse foi um ponto sem unanimidade. Levando em consideração o que cada um prefere (como 1 ponto positivo) e o que cada um não gostaria (como ponto negativo), temos maior aceitação da sala, depois do teatro, depois da rua. Levando em consideração também que três pessoas não deram opinião, por achar irrelevante. Alguns outros deram opinião, mas disseram que se não fosse como queriam, ainda assim fariam com prazer. Mas algumas pessoas mostraram certo incômodo com a ideia de ser na rua. Enfim, acredito que este ponto possa permanecer aberto, ao menos até a definição da montagem.


ASPECTOS DA MONTAGEM

Diante das entrevistas, foram detectados pontos imprescindíveis, questões que, se não são condizentes com a vontade de todos, são condizentes com as aspirações da grande maioria. Uma peça com todos em cena, contracenando com olho no olho, jogo cênico, falas fortes, subtextos, conflitos humanos intensos, margem para boas atuações, linguagem próxima à naturalidade, que através de diálogos contundentes mexa com a visão de mundo do espectador. Uma peça que soe como novidade em nosso repertório sem perder a identidade criativa. Que se abra a várias leituras e que nos dê boas possibilidades de lucro.


DEMANDAS PESSOAIS

Tentando suprir algumas ansiedades pessoais e pequenos diferenciais entre os interesses de cada um, usando isso como aspecto positivo, sugiro então algumas coisas:

- Edivaldo, ao contrário da maioria, se vê muito mais atraído por questões relacionadas a “gesto” e “corpo”. Tem gostado de experimentar a fisicalidade que se expressa por si, abolida de texto. Esse poderia ser o diferencial do personagem dele. Pensar num personagem de composição física, desprovido de falas. Edivaldo colocou-se também disponível para ajudar na criação corporal dos outros atores, abrindo mais uma possibilidade de inserção no trabalho.

- Samya comentou algumas vezes a necessidade de ser desafiada como atriz. Este foi um assunto conversado ultimamente com algumas pessoas do grupo. Proponho a Samya que se desligue, nessa montagem, da preparação corporal do grupo, que nem sequer divida essa função com Edivaldo. Proponho que se atenha apenas a seu trabalho de atriz, e que pegue uma personagem de tom mais grave e denso. Que se desafie a fazer uma mulher mais madura e firme, saindo do estigma da fragilidade. Deixando de lado a facilidade em partituras corporais para centrar-se no texto. Focar no seu trabalho individual de atriz.

- Paula, como sempre, se mostrou muito interessada em estudos. Poderia liderar nossos estudos teóricos a partir das temáticas, organizando todo o aprofundamento de conteúdo. Inclusive antes do texto ficar pronto. Quero ver uma maneira de explorar o lado narrativo da Paula como atriz, atribuindo-lhe finalmente um personagem que trabalhe possibilidades épicas.

- Démick poderia pensar criativamente a luz, forçando-se a pesquisar sobre o tema, descobrir formas diferenciadas de uso da luz, trazendo novidades para experimentarmos, etc.

- Yuri, terá o desafio de atuar e dirigir um elenco de dez atores. Também o desafio de obter plasticidade a partir de recursos mais simples (que ele tira de letra). Há o desafio da direção de ator, para isso precisará de enorme disciplina de todos nós.

- Tatiana há muito vem falando em contribuir na direção de ator. Poderia ajudar a mim e a Yuri nos trabalhos com texto, puxando os estudos de mesa, com tudo aquilo que tanto estudamos no Colégio de Direção. Tatiana é muito eficiente nisso.

- Ric falou de sua insegurança, falou que precisa saber que é ator. Essa proposta contemplará sua ansiedade de estar em cena com um tipo de espetáculo que lhe satisfaz.

- Chris, apesar de seus expedientes, quer ter uma oportunidade para desenvolver seu lado de atriz e ajudar em outros aspectos da montagem conforme seu tempo permitir.

- Rogério e Tati, querem trabalhar com verborragia.

- Rafael (eu) já faz o que gosta. Escrevendo o texto e dando assistência ao Yuri.


Por Rafael Martins