RESULTADO ENTREVISTAS - BAGACEIRA
Revendo todo o material das entrevistas, vou a alguns pontos que se tornaram muito comuns:
POSIÇÃO DIANTE DO GRUPO
- Cansaço: A enorme maioria parece estar cansada, entediada. Com o grupo e com a própria vida. A espera de novidades, de projetos que caminhem de verdade e de alguma peça que retome a ousadia e o impacto que ficou menor nas montagens dos últimos anos. Querem novidade, algo que não tenha sido feito no grupo.
- Impaciência / pressa: Devido ao cansaço, todos querem agilizar a montagem sem passar pelos erros do passado, mas com certa urgência. Parecem querer “fazer”. Estão cansados de discussões.
- Falta de dinheiro: Muitos (talvez todos) demonstraram frustração em aspectos financeiros, e no crescimento do grupo como empresa. Talvez seja importante pensarmos, então, nas possibilidades de lucratividade do novo espetáculo, até porque nele estarão dez atores.
- Convivência: Bastante citada também, foi a falta de prazer na convivência, que veio aumentando. Precisamos ficar atentos, dessa vez, para termos um processo mais leve, mesmo com as diferenças de personalidade. O processo deverá reabilitar a convivência entre todos.
- Enjôo de Teatro: Alguns citaram estar enjoados de teatro. Outros demonstraram não ter sido tocados por praticamente peça nenhuma nos últimos anos. Quando citamos a produção teatral local, muitas vezes pareceu haver sentimentos como desprezo e aversão. Poucos citaram peças locais dentre as boas peças que assistiram. E quando citaram, falaram de peças antigas.
PRÓXIMA MONTAGEM
Eis aqui, algumas das expectativas mais recorrentes para a próxima montagem:
- Todos em cena: Todos demonstraram vontade de participar atuando. E muitos citaram a importância de, nesta montagem, estarem os dez em cena.
- Naturalismo na interpretação: Surpreendentemente, quase todos colocaram a vontade de fazer algo próximo ao natural. Citaram palavras como realismo, naturalismo e minimalismo. Muitas vezes esclareceram dizendo que não precisa ser uma peça “puramente” naturalista, mas com interpretações mais naturais, espontâneas, íntimas.
- Foco no ator: Também com grande maioria, a idéia de peça que valorize o ator acima de qualquer aparato cênico. Muitos sentem a precisão de trabalhar melhor a palavra, subtextos, fazer intenso trabalho de mesa, experimentar a verborragia.
- Olho no olho: Esse foi um termo muito usado. Os atores têm sentido necessidade de trocar olhares, de proximidade, de diálogo, de cumplicidade em cena. “Olho no olho” e “contracenar” foram expressões comuns ao discurso da maioria.
- Várias leituras: Alguns falaram em “obra aberta” ou “abrir para várias leituras”.
- Comoção: Falaram muito em comoção, em deixar o espectador à flor da pele. Citaram muitas obras de cunho delicado e comovente.
- Cara limpa: Comentaram a necessidade de fazer uma peça com caracterização menos pesada.
TEMAS MAIS RECORRENTES
- Solidão
- Escolhas
- Liberdade / aprisionamento
- Tempo / Efêmero
- Patologias psicológicas /obsessões
- Maldade/crueldade
- O ser humano
LOCAL DE APRESENTAÇÃO
Esse foi um ponto sem unanimidade. Levando em consideração o que cada um prefere (como 1 ponto positivo) e o que cada um não gostaria (como ponto negativo), temos maior aceitação da sala, depois do teatro, depois da rua. Levando em consideração também que três pessoas não deram opinião, por achar irrelevante. Alguns outros deram opinião, mas disseram que se não fosse como queriam, ainda assim fariam com prazer. Mas algumas pessoas mostraram certo incômodo com a ideia de ser na rua. Enfim, acredito que este ponto possa permanecer aberto, ao menos até a definição da montagem.
ASPECTOS DA MONTAGEM
Diante das entrevistas, foram detectados pontos imprescindíveis, questões que, se não são condizentes com a vontade de todos, são condizentes com as aspirações da grande maioria. Uma peça com todos em cena, contracenando com olho no olho, jogo cênico, falas fortes, subtextos, conflitos humanos intensos, margem para boas atuações, linguagem próxima à naturalidade, que através de diálogos contundentes mexa com a visão de mundo do espectador. Uma peça que soe como novidade em nosso repertório sem perder a identidade criativa. Que se abra a várias leituras e que nos dê boas possibilidades de lucro.
DEMANDAS PESSOAIS
Tentando suprir algumas ansiedades pessoais e pequenos diferenciais entre os interesses de cada um, usando isso como aspecto positivo, sugiro então algumas coisas:
- Edivaldo, ao contrário da maioria, se vê muito mais atraído por questões relacionadas a “gesto” e “corpo”. Tem gostado de experimentar a fisicalidade que se expressa por si, abolida de texto. Esse poderia ser o diferencial do personagem dele. Pensar num personagem de composição física, desprovido de falas. Edivaldo colocou-se também disponível para ajudar na criação corporal dos outros atores, abrindo mais uma possibilidade de inserção no trabalho.
- Samya comentou algumas vezes a necessidade de ser desafiada como atriz. Este foi um assunto conversado ultimamente com algumas pessoas do grupo. Proponho a Samya que se desligue, nessa montagem, da preparação corporal do grupo, que nem sequer divida essa função com Edivaldo. Proponho que se atenha apenas a seu trabalho de atriz, e que pegue uma personagem de tom mais grave e denso. Que se desafie a fazer uma mulher mais madura e firme, saindo do estigma da fragilidade. Deixando de lado a facilidade em partituras corporais para centrar-se no texto. Focar no seu trabalho individual de atriz.
- Paula, como sempre, se mostrou muito interessada em estudos. Poderia liderar nossos estudos teóricos a partir das temáticas, organizando todo o aprofundamento de conteúdo. Inclusive antes do texto ficar pronto. Quero ver uma maneira de explorar o lado narrativo da Paula como atriz, atribuindo-lhe finalmente um personagem que trabalhe possibilidades épicas.
- Démick poderia pensar criativamente a luz, forçando-se a pesquisar sobre o tema, descobrir formas diferenciadas de uso da luz, trazendo novidades para experimentarmos, etc.
- Yuri, terá o desafio de atuar e dirigir um elenco de dez atores. Também o desafio de obter plasticidade a partir de recursos mais simples (que ele tira de letra). Há o desafio da direção de ator, para isso precisará de enorme disciplina de todos nós.
- Tatiana há muito vem falando em contribuir na direção de ator. Poderia ajudar a mim e a Yuri nos trabalhos com texto, puxando os estudos de mesa, com tudo aquilo que tanto estudamos no Colégio de Direção. Tatiana é muito eficiente nisso.
- Ric falou de sua insegurança, falou que precisa saber que é ator. Essa proposta contemplará sua ansiedade de estar em cena com um tipo de espetáculo que lhe satisfaz.
- Chris, apesar de seus expedientes, quer ter uma oportunidade para desenvolver seu lado de atriz e ajudar em outros aspectos da montagem conforme seu tempo permitir.
- Rogério e Tati, querem trabalhar com verborragia.
- Rafael (eu) já faz o que gosta. Escrevendo o texto e dando assistência ao Yuri.
Por Rafael Martins
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